Cria do Beco da Macumba, em Santa Cruz, campeão mundial de jiu-jítsu agora encara o desafio do UFC BJJ
Ataíde Rafael conhece de perto o caminho entre um sonho e sua realização. Aos 17 anos, iniciou no jiu-jítsu em um projeto social na Faetec de Santa Cruz. Para custear as competições, conciliou os treinos com trabalhos na construção civil e como segurança no Barra Shopping. Anos de dedicação o levaram ao título mundial e à carreira internacional.
Hoje, aos 37 anos, vivendo e trabalhando nos Estados Unidos, Ataíde se prepara para estrear amanhã no UFC BJJ. A nova fase é resultado de uma trajetória iniciada no bairro onde nasceu e cresceu e que ajudou a formar o homem, professor e atleta que se tornou.
Em 2023, conquistou o Campeonato Mundial de Jiu-Jítsu sem kimono da IBJJF, na categoria Master 1. Hoje, busca transformar essa experiência em inspiração para jovens que enxergam no esporte uma possibilidade de mudança e novas oportunidades.
Em entrevista por telefone ao jornalista Márcio Guilherme, o atleta relembra o início da carreira, os obstáculos que enfrentou, sua relação com Santa Cruz e a Acadêmicos de Santa Cruz, a experiência nos Estados Unidos e o significado de chegar ao UFC BJJ.
Confira a íntegra da entrevista:
1. Como nasceu o sonho de ser lutador e quando você percebeu que poderia viver do esporte?
Comecei a treinar aos 17 anos, em um projeto social na Faetec de Santa Cruz, com o mestre Hércules Baptista, que me deu todas as minhas faixas. Pessoas como Carlos César, o Bocás, também foram importantes nessa caminhada.
Com o tempo, percebi que o jiu-jítsu poderia transformar minha vida. Trabalhei na construção civil e como segurança no Barra Shopping para custear minhas competições. Foram muitos sacrifícios, mas continuei acreditando até conquistar o título mundial.
Se pudesse falar com aquele menino que começou, diria apenas: “Obrigado por não desistir.”
2. Qual foi o maior desafio no início da carreira e o que essa fase ensinou a você?
A falta de apoio e patrocínio foi um dos maiores desafios. Inscrições, transporte, alimentação e equipamentos geravam custos que, muitas vezes, saíam do meu próprio salário.
Conciliar trabalho, treinos e competições exigia muito esforço. Essa fase me ensinou disciplina, persistência e, principalmente, gratidão por cada pessoa que contribuiu para que eu continuasse.
3. Quanto da pessoa e do atleta que você se tornou nasceu da comunidade onde foi criado?
Muito do que sou foi construído ali. Sou cria do Beco da Macumba e cresci cercado por pessoas trabalhadoras, que enfrentavam dificuldades sem abandonar seus objetivos.
Foi nesse ambiente que aprendi a lutar pelo que queria, respeitar os outros e aproveitar as oportunidades. Esses ensinamentos fazem parte de quem sou como homem, professor e atleta.
4. O que Santa Cruz representa na sua identidade e na sua história?
Santa Cruz é minha casa. Foi onde nasci, cresci e dei os primeiros passos na vida e no esporte. Minha família, meus amigos, meus mestres e muitas das minhas lembranças estão ligados ao bairro.
Mesmo morando nos Estados Unidos, carrego comigo tudo o que vivi ali.
5. Mesmo com uma carreira internacional, quais valores das suas raízes você faz questão de preservar?
Humildade, respeito e gratidão.
Em 2023, conquistei o Campeonato Mundial de Jiu-Jítsu sem kimono pela IBJJF, na categoria Master 1, e agora tenho a oportunidade de competir no UFC BJJ. Cada conquista aumenta minha responsabilidade de valorizar quem esteve comigo desde o começo.
6. Como surgiu sua ligação com a Acadêmicos de Santa Cruz?
A Acadêmicos de Santa Cruz faz parte da identidade do bairro. A escola tem uma história importante e uma relação muito forte com a comunidade.
Minha ligação vem desse sentimento de pertencimento, de ver nossa cultura, nossa gente e nosso lugar representados com orgulho.
7. O que significa levar o nome de Santa Cruz na sua trajetória e, de certa forma, também na história da escola?
É motivo de muito orgulho. Santa Cruz tem muitas pessoas que servem de exemplo, e fico feliz por poder representar o bairro, sempre respeitando aqueles que abriram caminho antes de mim.
A escola leva o nome de Santa Cruz para a avenida, e eu procuro levá-lo comigo para os tatames. São formas diferentes de mostrar a força da nossa comunidade.
8. Quando você representa o Brasil internacionalmente, o que sente ao lembrar de onde veio?
Sei que não estou competindo apenas por mim ou por uma medalha. Existe um propósito maior.
Quero mostrar aos jovens que o esporte pode abrir oportunidades e mudar vidas. Quando entro para competir, levo comigo minha família, meus mestres e todas as pessoas que fizeram parte dessa caminhada.
9. Como viver e competir nos Estados Unidos mudou sua visão sobre sua carreira?
A experiência nos Estados Unidos ampliou minha visão sobre o que posso alcançar por meio do jiu-jítsu.
Hoje sou professor, continuo competindo e tenho a oportunidade de construir um futuro para minha família, além de ajudar meus alunos a perseguirem seus próprios objetivos.
10. O que chegar ao UFC BJJ representa na sua trajetória?
É a realização de um sonho construído ao longo de muitos anos.
Quando olho para trás, lembro daquele garoto que começou em um projeto social, trabalhava para poder competir e precisou superar muitas dificuldades.
Chegar ao UFC BJJ mostra que o ponto de partida não determina onde podemos chegar. Dedicação, escolhas e persistência fazem parte dessa construção.
11. Como você preserva sua identidade mesmo estando longe de Santa Cruz?
Minha identidade está na forma como trato as pessoas, ensino meus alunos e conduzo minha vida.
Também faço questão de manter os vínculos com meus mestres, amigos e todos que participaram do início da minha caminhada. Minha história começou em Santa Cruz, e isso sempre fará parte de quem sou.
12. Qual é sua relação com o samba e com os desfiles da Acadêmicos de Santa Cruz?
Adoro assistir aos desfiles da Santa Cruz e ver meus amigos felizes, defendendo a escola.
Nunca tive a oportunidade de desfilar. Quando era mais novo, minha saudosa mãe, Ângela, não permitia porque tinha medo. Depois, muitas vezes eu estava fora do Brasil.
Ainda assim, o carinho pela escola permaneceu. Ver a Santa Cruz na avenida é algo que me emociona e me enche de orgulho.
13. O que significa ser uma referência para os jovens da sua comunidade?
É uma honra e, ao mesmo tempo, uma responsabilidade.
Conheço as dificuldades de quem começa com poucos recursos. Por isso, quero que os jovens vejam minha trajetória e entendam que é possível construir um caminho diferente.
Espero que minhas conquistas sirvam para abrir portas e mostrar que estudo, esporte, disciplina e dedicação podem transformar vidas.
14. Que legado você deseja deixar dentro e fora do esporte?
Quero deixar algo maior do que medalhas.
Desejo ser lembrado como alguém que ajudou pessoas, formou alunos e incentivou jovens a acreditarem no próprio potencial.
Uma vitória é importante, mas acompanhar alguém mudando de vida por meio do jiu-jítsu tem um significado ainda maior.
15. Que mensagem você deixa para os jovens que sonham em seguir seus passos?
Respeitem seus pais, valorizem suas famílias e estejam perto de quem realmente deseja o bem de vocês. Estudem, escolham bem suas amizades e não abandonem seus objetivos diante da primeira dificuldade.
Tenham fé em Deus, trabalhem com honestidade e nunca tenham vergonha da própria origem.
Eu comecei em um projeto social em Santa Cruz e hoje vou competir no UFC BJJ. Vocês também podem construir uma história da qual tenham orgulho.
É feliz quem tem Santa Cruz no coração!



